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Perigo: marido solto a bordo

Por Rubem Mauro Machado

Depois de 25 anos de casamento, Lucinha deu de cismar que Valtinho devia pular a cerca de vez em quando.

– Não é possível que ele continue a ser fiel todo esse tempo. Nenhum homem é assim – argumentava com a amiga Leiloca.

Não adiantava Leiloca retrucar que os dois formavam o casal mais harmonioso que ela conhecia e que não dá para generalizar, as pessoas são diferentes, ela tinha muita sorte de ter um marido daqueles, carinhoso, bom pai, eterno apaixonado, sempre de bom humor, uma jóia, um verdadeiro achado. Ele dera algum motivo de suspeita? Nunca. Por que ela então não sossegava o facho? Lucinha era teimosa e insistiu que não descansaria enquanto  não tirasse isso a limpo.

Dias depois ligou para a amiga e gritava de excitação ao telefone:

– Leiloca, tive uma idéia genial. Você vai ter de me ajudar.

– Do que você está falando, sua doida?

Marcaram um encontro; e quando Lucinha expôs sua trama diabólica, Leiloca achou que a outra tinha mesmo endoidado de vez. A inspiração viera ao folhear por acaso num café do Itaim um exemplar do jornal Dance, quando  deu de cara com um anúncio do cruzeiro Dançando a bordo. E, mulher decidida, se bem pensou, melhor agiu.

Levou o jornal ao marido e lhe falou do cruzeiro: poderia haver férias melhores e mais divertidas para os dois? Valtinho, que fazia todas as vontades da mulher, topou de cara. Seria uma nova lua de mel, ainda mais que os  meninos iam passar um mês na fazenda do pai de um coleguinha deles, ocasião melhor não ia aparecer. E, assoviando, comprou numa agência de viagens uma cabine, imaginando os momentos felizes a bordo.

A maquiavélica Lucinha enquanto isso tratava de comprar secretamente outra cabine, para ela e Leiloca, embora a amiga sustentasse que aquilo nunca ia dar certo:

– Imagine se o Valtinho não vai reconhecer você? Isso é impossível.

– Aquele? Desligado como só ele? Você vai ver só. Conheço o meu eleitorado. Além do mais, você lembra que eu sempre quis ser atriz? Pois bem, agora, vou poder mostrar o meu talento.

A idéia inicial de Lucinha tinha sido a de pedir para alguma mulher a bordo dar em cima do maridão, e assim observar as reações dele. Mas ponderou que isso era cutucar a onça com vara curta; e com a esposa do lado ele de  qualquer forma teria de se segurar. Fora aperfeiçoando o plano com vagar, enquanto fazia as unhas na manicure ou esquentava os miolos no secador do cabeleireiro; e contou depois com a colaboração de várias amigas, até chegar ao requinte do que considerava uma obra prima: a outra seria ela mesma.

Véspera do embarque em Santos, com as malas já prontas, ela chega para Valtinho e mostra desolada o telegrama: a mãe idosa que mora em Ribeirão Preto sentira umas pontadas no peito, ia ter de fazer vários exames, estava com medo e pedia a presença dela. Não podia desamparar a velha nesse momento difícil.

– Sem você, eu também não vou – retrucou o solidário Valtinho.

– De jeito nenhum. Faço questão de que você se divirta um pouco, trabalhou muito este ano. Além do mais, se ela melhorar, eu pego um avião e tomo o navio em Salvador, fazemos juntos o trecho de volta.

Com essa possibilidade, depois de muita insistência dela, ele por fim capitulou e aceitou embarcar sozinho em Santos no Costa Magica. Lucinha e Leiloca pegaram um avião para o Rio e tomaram o navio no dia seguinte. Só que  ao pisar no convés, uma certa Soraia, como um espírito baixado do Além, tomou o lugar de Lucinha, de corpo e alma. Ao invés da morena de pele clara, existia uma ruiva, efeito da peruca chamejante como uma fogueira; lentes  de contatos converteram os olhos castanhos em esverdeados; as faces ganharam novo colorido com rouge, que Lucinha nunca usava, efeito reforçado pelo tom forte do novo batom, quase igual ao das compridas unhas postiças. Em lugar da roupa discreta, um guardaroupa de cores vivas e alegres, reforçado por um estoque de bijuterias, contribuía para o tom cheguei da suposta carioca da Tijuca, um tanto perua, é verdade, mas alegre e calorosa. O  arremate de tudo era a capa de acrílico dos dentes da frente, obra de Vera, a dentista e velha amiga dos tempos de colégio, que deixava Lucinha ligeiramente prognata. O adesivo dental tinha uma vantagem extra: mudava um pouco o modo de falar de Lucinha, ela não precisava se preocupar em procurar uma emissão diferente, que acontecia naturalmente. Leiloca virara Vanderléia, uma loira de óculos.

Depois de instaladas na cabine, as duas saíram a percorrer o imenso navio – e seus corações com certeza batiam mais forte, não só por estarem naquele ambiente de sonho, mas também pela emoção de viverem pela primeira  vez na vida um personagem, como se estivessem num palco. E embora Vanderléia-Leiloca não parasse de dizer que Soraia-Lucinha era louca varrida, ela própria tinha embarcado na aventura da amiga, que agora também sentia como sua.

Não conseguiram esbarrar com Valtinho; mas como as cabines eram quase fronteiras, cuidado que Lucinha tivera na hora de comprar, era certo que isso ia acontecer. Com habilidade, as duas conseguiram descobrir com o maitre do restaurante Portofino o número da mesa do incauto marido, no primeiro turno do jantar, e conseguiram para si uma mesa ao lado. O palco estava armado para a comédia começar.

Assistiram à saída no fim de tarde da baía de Guanabara, salpicada pelos flashes das câmeras que tentavam fixar praias, ilhas e fortalezas. Quando o navio ganhou mar alto, foram se arrumar ara o jantar. Ao ocuparem seu lugar no festivo restaurante e darem pela primeira vez com Valtinho, muito elegante num blazer cinza sem gravata, em animada conversa com os companheiros de mesa, as duas mulheres tremeram de emoção: aquele era um  momento decisivo, a prova dos nove. E para se acalmarem, foram logo entornando um cálice do generoso tinto italiano depositado à sua frente. Em dado momento Valtinho girou o distraído olhar de sempre e deu de cara com  as duas mulheres. Deteve-se em Soraia, com um ar de susto, que logo se converteu em interrogativo, como se buscasse alguma coisa na memória; e o coração dela batucou ainda com mais força, pensou que ia ter um faniquito e cair dura ali mesmo: interpretar um papel não é só uma brincadeira, tem um custo emocional grande. Durante o resto do jantar, os olhares deles se cruzavam a todo instante, enquanto Soraia cutucava Vanderléia com o pé, por baixo da mesa.

Depois de entornar alguns copos de vinho, Soraia sentiu-se outra vez dona de si, dizendose que tinha de manter o sangue frio para tudo dar certo. E quando Valtinho ergueu-se depois da sobremesa, ela levantou-se,  encaminhou-se para ele e disse na maior cara de pau:

– Desculpe, mas eu notei que o senhor me olhou o tempo todo durante o jantar. Será que nós nos conhecemos de algum lugar?

O suave Valtinho pareceu ligeiramente embaraçado:

– Ah, você me desculpe – e Soraia adorou que ele a tratasse por você e não por “a senhora” – mas de fato me lembra muito alguém. Cheguei a ficar surpreso. Peço desculpas se fui inconveniente.

Soraia pensou, ah o safado falou “alguém” e não “a minha esposa”, aí tem coisa, deixa estar que ele me paga.

– Bem, confesso que já estava ficando vaidosa, por atrair os olhares de um cavalheiro tão elegante. Vejo que me enganei – ela chiava nos esses, exagerando na carioquice, e Vanderléia ao lado mordia os lábio para não cair na risada.

– A verdade é que você tem todo o direito de ser vaidosa – ele retrucou, galanteador – Permitame me apresentar: meu nome é Walter. E o seu?

E ali começou a nova amizade. Soraia lhe apresentou a amiga Vanderléia e acabaram indo os três assistir ao show do teatro Urbino. Depois seguiram para um dos bailes da noite. Valtinho e Soraia dançaram alguns boleros  românticos e ela começou a sentir uma emoção diferente, como se aquele homem não fosse de fato o seu marido de tantos anos. Ele a convidou para beberem uma taça no piano-bar. Ali, falaram de si. Ele morava em São Paulo, era dono de uma loja de material de construção, tinha dois filhos adolescentes; infelizmente a esposa tivera um problema de família e não pudera vir. Estava adorando a viagem mas se sentindo um tanto só. Soraia, carioca da gema e da clara, nem precisava dizer, o sotaque dela mostrava logo, morava na Tijuca, onde era dona de um salão de beleza. Fora casada, mas se separara ao descobrir que o marido a enganava. Não tinha filhos. Romântica, esperava se divertir muito nesse cruzeiro. Combinaram de fazer as aulas de bolero e samba no pé na manhã do dia seguinte. E acharam graça quando descobriram que suas cabines ficavam quase frente a frente.

Nos dois dias seguintes de navegação Valtinho e Soraia tornaram-se inseparáveis, com o testemunho à distância da discreta Vanderléia. Faziam aulas de dança juntos, esticavam a conversa enquanto se bronzeavam na borda da piscina, compareciam aos chás dançantes do meio da tarde, batiam ponto no teatro, arriscavam uns trocados no cassino, bebiam um drinque no piano-bar e depois dançavam num dos cinco bailes de ritmos variados até a madrugada, encerrada com uma escapulida até o bufê para comerem uma fruta ou um doce. Soraia estava ficando siderada com a novidade daquele namoro, sentia-se voltando aos primeiros anos da mocidade. Em três  ocasiões, momentos em que Valtinho ficou só no convés e ela podia observá-lo à distância, Lucinha ligou de Ribeirão Preto para o celular dele, para dizer que a mãe estava bem e que era quase certo que ela pegaria um avião e iria encontrá-lo, se não desse em Salvador, pelo menos em Ilhéus.

Desembarcaram os três em Salvador e se deliciaram pela manhã com uma caminhada pelo conjunto colonial do Pelourinho, que incluiu uma visita à imperdível igreja de São Francisco, e depois beberam a brisa da tarde num passeio litorâneo que os levou até às praias de Itapoã e Piatã. Provaram acarajé do tabuleiro da baiana e deram boas risadas com as anedotas que um animado Valtinho prodigalizava.

Naquela noite, depois da partida do navio, quando participavam da animada festa tropical na piscina da popa, sob a luz das estrelas, Soraia jogou sua cartada decisiva. Virando-se de repente para o novo amigo, disse-lhe, fitando-o nos olhos:

– Valtinho, preciso lhe confessar uma coisa. Sei que você é casado, eu nem devia dizer isso, mas estou me sentindo envolvida com você.

Valtinho pareceu ligeiramente perturbado:

– Não posso negar que você também me atrai. Pareciam prestes a se beijar e então, de súbito, Soraia lhe deu as costas e saiu quase correndo por entre um grupo animado de foliões que vinha chegando, para perplexidade do pobre homem, que não teve tempo de reagir. Vanderléia que tudo assistia discretamente à distância, sem entender o que estava acontecendo, lançou-se atrás da amiga, escadarias abaixo, na direção da cabine.

Soraia entrou, tirou a peruca, o protetor dental, as unhas postiças e se pôs a chorar, soluçando, sentada na cama. As lágrimas copiosas ao borrar a maquiagem deixavam seu rosto parecido com o de uma palhacinha; e ao se ver no espelho, ela teve vontade de chorar com mais força. Uma palhaça, isso é o que ela era. E foi assim que Vanderléia a encontrou.

– O que é isso mulher? O que foi que aconteceu?

– Eu o desmascarei, Leiloca: o Valtinho é, sim, capaz de me trair.

– Mas Soraia, você precisa ser internada com urgência num hospício. Você perdeu completamente o senso da realidade.

– Pare de me chamar de Soraia – reagiu a outra com raiva – Soraia não existe; só existe Lucinha, uma mulher traída! Eu flagrei tudo: ele quase beijou uma desconhecida, uma perua carioca, uma sirigaita que conheceu há  apenas três dias. Não adianta, homem é tudo igual. Está provado.

– Olha aqui, sua estúpida, pode me ouvir um pouco? O que é que o seu marido fez? Ele traiu você com você mesma. Não percebe isso? Você devia era ficar muito feliz; provou que, depois de tantos anos, ainda continua capaz de fazer ele se apaixonar, ou pelo menos se envolver, com você. Afinal de contas, por debaixo desse disfarce, o que existe? Você mesma, em carne, osso e espírito. De certa forma, ele continua mais fiel do que nunca a você,  sua tola.

Lucinha que parara de chorar para ouvir surpreendida as palavras da amiga, esfregou os olhos e perguntou com voz engasgada:

– Você acha mesmo? Ou está dizendo isso só para me consolar?

– É claro que eu acho, Lucinha! Caraca, eu então ia mentir para minha melhor amiga!

Lucinha refletiu por um bom momento e depois disse:

– Eu vou pensar depois sobre tudo o que aconteceu. Agora estou muito confusa e cansada; o melhor é ir dormir e amanhã decidir o que fazer.

No outro dia, quando abriu os olhos e espiou pela escotilha, estavam ancorados no porto de Ilhéus, que brilhava sob o faiscante sol do sul da Bahia. Leiloca dormia de ressonar e Lucinha decidiu não acordá-la. Lavou-se, vestiu-se e, sem apelar para os disfarces, mais Lucinha do que nunca, dos pés à cabeça, foi bater decidida à porta da cabine de Valtinho, como fazia todas as manhãs para irem tomar o café da manhã. Ele gritou “um  momentinho” lá de dentro e dali a pouco abriu a porta. Pareceu perplexo por uma fração de segundos, ao dar com ela ali em pé, olhando firme para ele: piscou os olhos duas vezes, como se diante da aparição inacreditável de uma pessoa morta.

– Lucinha – exclamou – você já chegou!

– Não, seu idiota, eu não cheguei. Eu sempre estive aqui, junto de você, você é que não percebeu. Soraia não existe; só existe é a sua mulher Lucinha, com um disfarce de Carmem Miranda.

Valtinho sacudiu a cabeça e começou a rir:

– E você acha que eu não sabia? Percebi desde o primeiro momento que era você; resolvi entrar no seu jogo, para ver até onde você ia e descobrir o que afinal pretendia.

– Mentiroso. Você está dizendo isso agora para limpar a sua barra.

– Imagine só se eu não iria reconhecer você! Até de olhos fechados.

– Você não me engana. Isso é papo furado seu.

Pelo resto da viagem Valtinho insistiu que tinha percebido desde o início que Soraia era a sua mulher de tantos anos; e, claro, Vanderléia era apenas a velha amiga Leiloca. E Lucinha nunca soube se ele falava a verdade ou não.  E assim descobriu que todo ciumento condena a si mesmo a um castigo perpétuo: carregar uma dúvida que nunca será esclarecida.

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