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Pequena grande dama

Por Rubem Mauro Machado

Certa vez Maria Antonieta me disse:

- Eu nunca recuso um cavalheiro que venha me tirar num baile, mesmo que ele não saiba dançar. Pelo menos uma música eu vou dançar com ele. Uma dama nunca deve dizer não a um cavalheiro, a menos que ele esteja bêbado.

Atitudes como essas é que faziam dela um exemplar raro dessa espécie cada vez mais em extinção, chamada “dama”. Nos tempos atuais de brutalidade nas relações sociais, em que dama e cavalheiro parecem ser apenas indicações pregadas nas portas dos banheiros e não símbolos de refinamento (nos bailes e fora deles), Antonieta fazia questão de ressaltar: dançar bem (coisa que fez como poucos) não basta; é preciso ser também cordial e  solidário com o próximo. Essa postura talvez derivasse de suas convicções socialistas, que nunca escondeu. Apesar de ter feito nome como mestra e dançarina, morreu pobre. Mas encontrou na dança a sua forma de ser feliz e talvez isso lhe bastasse.

Gostava de contar como, mocinha, teve de mentir a idade para poder freqüentar a famosa Academia Moraes, onde depois se tornou instrutora. Partilhou sua arte como alguns dos maiores nomes da dança de salão brasileira. A perda recente de um filho foi mais um golpe duro; nem assim se deixou abater. Nos últimos tempos, mesmo doente e alquebrada, aparecia nos bailes, especialmente na sua amada Estudantina da Praça Tiradentes, onde dançava um ou dois boleros, antes de voltar para casa, situada não muito longe. As pessoas passam, o exemplo que deixam permanece. A dança de salão brasileira não vai esquecer Maria Antonieta.

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