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Parece que foi ontem

Por Rubem Mauro Machado - Repórter Especial

O telefone tocou e era Milton do outro lado da linha. Ele me comunicou a intenção de lançar um jornal voltado para a dança, sobretudo para a dança de salão, e me convidou para colaborar nele, escrevendo do Rio.

Eu disse que sim, claro, podia contar comigo. Mas confesso, não botei grande fé no empreendimento. Não por desconfiar da capacidade profissional de meu irmão; já havíamos trabalhado juntos na grande imprensa, em mais de uma ocasião, em nossas já longas carreiras jornalísticas, e não tinha a menor dúvida de que faria um bom produto. O problema é que é muito difícil a sobrevivência de publicações alternativas em qualquer parte do mundo, o que dirá num país pobre como o nosso, avesso à leitura e em que tudo é difícil.

E não foi fácil a trajetória do Dance. Acompanhei à distância as incompreensões e dificuldades enfrentadas, os momentos de desânimo em que o experiente editor por pouco não desistiu de sua idéia. Sem falar que todo pioneirismo cobra um preço alto. Mas aí apareceu a garra e a persistência do Milton, que não é de entregar os pontos facilmente. Além da competência e profissionalismo, falou alto também o amor pela dança, que fica evidente em cada edição. Aos poucos o jornal foi firmando seu conceito, tornando-se uma referência para os dançarinos não só de São Paulo como de todo o Brasil. Milton chegou a propor que eu fizesse uma edição carioca do jornal, convite que não pude aceitar, por estar envolvido com meus próprios projetos.

Agora o jornal chega, firme, forte e respeitado, aos quinze anos de vida, marca apreciável. E, desculpem a modéstia, a parte que me cabe nisso tudo é muito pequena e portanto posso falar, cada vez melhor. Em nossas viagens pelo Brasil, posso constatar que hoje, graças à internet, é lido no interior dos mais distantes estados. Todos os anos temos o prazeroso trabalho de preparar as edições de bordo que são distribuídas aos passageiros dos cruzeiros dançantes que o Dance patrocina e divulga em estreita associação com a Costa Cruzeiros. Cobrimos eventos de dança no Paraguai, Argentina, Chile, França e outros países. Sem falar na inesquecível edição sobre a dança em Cuba, onde estivemos a convite do governo cubano, até hoje comentada e solicitada.

Com trabalho e talento o Milton criou um jornal que não se preocupa apenas em ser um espaço de mero passatempo, mas sim um veículo cultural, no sentido profundo da palavra, aberto ao debate e à divulgação de idéias: afinal, a dança é um ato social de grande significado. E a mensagem que o jornal tem passado é: só dançar bem não basta, é preciso ser um agente consciente, saber que cada um de nós tem um papel no mundo. Tornou-se assim um parceiro e um amigo confiável de seus muitos leitores. E num momento e num país em que a ética é jogada todos os dias na lata do lixo, o que mais me dá prazer é saber que o Dance é acima de tudo uma publicação honesta. Tin tin.

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