Os concursos de forró e tango
Por Milton Saldanha
Quando há nivelamento entre os competidores qualquer resultado será injusto. Mesmo assim os campeonatos são altamente estimulantes e belos. Ajudam muito a dança.
Há muito tempo eu não via tanta alegria num evento. E olha que já rodei estrada pelo mundo (literalmente) da dança. Foi o que mais me chamou a atenção no I Congresso Paulista de Forró, que englobou 36 oficinas, três palestras, dois debates, quatro bailes, mais a I Mostra Paulista de Forró e I Campeonato Paulista de Forró.
Realização, é indispensável citar aqui, de Ivan Ribeiro, Celso Ricardo, DJ Celinho, Duda Lima, Evandro Paz, Fabio Reis, Gustavo Lilla, J. Júnior, Joselene Carvalho, Marcelo Santos, Matheus Leisnoch e Solange Gueiros. Nomes, portanto, relevantes na dança de salão e de forma especial no forró, com seus variados estilos musicais e de dançar. Eles contaram também com diversos apoiadores, entre eles, claro, este jornal.
No Campeonato, que Dance homenageia nesta edição, o entusiasmo e satisfação de todos os competidores foram totais. Isso, mais do que evidente, foi contagiante. O público fez parte intensamente da festa. Gostaria de destacar ainda, sobre nossa capa, que ela informalmente passou a fazer parte dos prêmios aos vencedores, como foi amplamente destacado durante as provas.
Esse apoio ao forró não é de agora, já acontecia nos tempos em que o nosso inesquecível Jô Passos, em parceria com a notável Myleide (hoje mestra na Dançare), tinham nesse ritmo seu carro chefe e foram também capa e tema de longa entrevista.
São raros os dançarinos brasileiros sem paixão pelo forró. Mesmo aquelas pessoas sem muito jeito para o balanço que a música estimula não resistem a uma seleção de forró durante um baile. A prova disso, confirmada por minha observação e pela vasta experiência do DJ La Luna, por exemplo, é que o momento do forró sempre lota todas as pistas. Isso será sempre motivo especial de satisfação e orgulho, porque o forró é um ritmo cem por cento nosso, brasileiro da raiz ao infinito.
Meus amigos sabem da minha paixão pelo tango, que há cinco anos estudo na teoria e prática intensamente, inclusive indo pelo menos duas vezes por ano a Buenos Aires. O que me atrai no tango é a beleza musical e a complexidade dos movimentos, principalmente daqueles de aparência supostamente mais simples aos olhos leigos, como a caminhada, que na verdade é a parte mais difícil e bela. Já no forró, o que me atrai é a alegria incomparável que transmite a quem dança, vê ou simplesmente escuta, sobretudo quando ao som de um desses trios e bandas maravilhosas que sacodem os bailes do gênero. Nem o samba, eternamente nossa expressão máxima, com uma dança muito sofisticada e belíssima, consegue a explosão de euforia e sensação de liberdade corporal ensejada pelo forró. Que não é tão simples de dançar como parece, pelo contrário, exige habilidades muito especiais. Contudo, tem a vantagem também de passos básicos muito simples, que qualquer pessoa aprende rapidamente, o suficiente para se divertir nos bailes, e isso é o que mais interessa. Não espanta que tenha sua origem e seja o forte do Nordeste brasileiro, banhado de sol tropical, com suas praias exuberantes, terra de famosos carnavais e belas festas folclóricas, com muita vida a céu aberto. Num lugar assim o corpo não se adapta ao confinamento, parece querer cada vez mais se expandir e se soltar. O forró expressa isso com toda sua energia. Que bom que é nosso, parte relevante da cultura e da arte popular brasileira!
O campeonato paulista foi o primeiro do gênero na cidade, são normais eventuais falhas, e o que se espera é que tenham sido percebidas e sirvam de aprendizado para melhorar no próximo. Por exemplo, permitiu-se a invasão da pista na proclamação dos resultados. Com a confusão dos festejos ficou faltando a apresentação final dos campeões, momento que o público sempre aprecia. Durante as provas as atenções do público estão divididas ou concentradas num único casal, neste último caso quando há torcidas. Sem o show final frustra-se o público de conhecer, com verdadeira atenção, os vencedores. É o momento também para fotos e filmagens, e quando geralmente dançam melhor, com muita emoção da vitória e já livres da natural tensão do concurso. A mesma observação vale para o 1º Campeonato de Tango Salão, que aconteceu na Dançata, vinculado ao 7º Congresso Mundial de Salsa do Brasil 2009, e que também terminou sem a dança final dos campeões.
Tirando esse e outros detalhes menores, até irrelevantes para tratar aqui, só tenho elogios às duas iniciativas, que indiscutivelmente estimularam praticantes e apreciadores das duas modalidades. O tango teve direção das bailarinas Alcione Barros e Margareth Kardosh, com diversos colaboradores, entre eles Dance, que além da cobertura ofereceu suas fotos gratuitamente à organização, para uso em divulgação.
Os concursos oferecem notável estímulo ao meio dançante, propiciando grandes emoções e casas cheias, além da evolução dos dançarinos. Mesmo reconhecendo isso, e sem negar meu entusiasmo quando vejo essas provas, não posso fechar os olhos a outros aspectos. Mesmo gostando, sempre interpreto com cautela seus resultados, por entender que quando há nivelamento entre os competidores qualquer decisão será injusta. Nunca se poderá dizer realmente, com absoluta convicção, que o campeão é realmente o melhor; nem que o último colocado é o menos capaz. Porque cada um será sempre mais forte num determinado quesito, além de outros fatores que podem influir, como a pista dura ou lisa demais. Isso favorecerá ou prejudicará um casal que gire mais, por exemplo. E mais: são julgados por outros dançarinos, que têm seus dogmas e maneiras subjetivas de avaliação. Já cansei de recusar convites para ser jurado em concursos, inclusive com oferta de cachê.
Não é minha função, sou repórter, quero e preciso estar lá sem essa responsabilidade, já tenho as minhas tarefas, principalmente fotografar. Muitos, já sabendo disso, nem cogitam mais do meu nome. Mas hoje, deixando qualquer frescura de lado, eu me sentiria muito seguro numa bancada de jurados de tango. E qual seria minha tendência? Tenderia, mesmo com todo esforço de isenção, a gostar mais da turma do estilo milongueiro. O contrário aconteceria com um jurado que prefere o estilo tango novo. E não me venham dizer que não é assim, porque é assim. No forró e qualquer outro ritmo será a mesma coisa, cada jurado jamais estará liberado das suas próprias referências estéticas, pouco importa se elas são supostamente as melhores ou não. Logo, sua visão será sempre pré-concebida, e isso não é erro nem defeito, é da condição humana pensante. Só que algum competidor sempre ganha com isso, enquanto outro perde.
Isso tudo leva à conclusão que dança no mesmo patamar é algo impossível de julgar, tantos são os fatores ali envolvidos. Desde aparência física, quer se queira ou não, porque são corpos em movimento; passando pela sofisticação técnica ou falta dela; até a natural aceitação ou rejeição de cada jurado, de forma subjetiva, porque já carrega conceitos que não são, nem devem ser, universais. Cada jurado, presume-se numa bancada de gabarito, tem uma maneira peculiar de ver a dança, ainda que certos critérios sejam de senso geral.
E se não houver nivelamento entre os competidores? Aí perde o sentido e a graça, nem precisa concurso. Fica uma situação contraditória interessante e inevitável: sem nivelamento é impossível, e com ele mais ainda. Mesmo assim vale a pena!
Quem entra tem que estar consciente desse risco e preparado para aceitar tanto a vitória como a derrota. Sem perder a autocrítica nem supor que realmente é o maior, se vencer. Sem afetar a auto-estima nem sofrer, se perder.
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