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O direito de dançar

Por Rubem Mauro Machado

O baile da Elite às quintas-feiras está muito bom, alguém me disse, resolvi conferir. De fato, o salão estava cheio, o que me deixou contente, porque a tradicional gafieira carioca andava há algum tempo um pouco marginalizada, fora do roteiro principal dos dançarinos; e estamos precisados de bons bailes no Rio. Passa-se algum tempo, a dança animada pára; e então fico sabendo, comemorava-se ali o aniversário de um conhecido dançarino. Senti logo o drama, mas o que se havia de fazer, só restava rezar para que o inevitável ao menos fosse breve. Bem, o sujeito toma o microfone e deita falação; como é de praxe, agradece aos presentes, a todos os que foram importantes na sua vida, cita amigos e parentes, relembra sua trajetória; e aquilo não tem mais fim. Depois um amigo se apodera do microfone e durante longos minutos enaltece o homenageado; aí, tomado de emoção, conta os percalços pelos quais ele próprio passou na vida, o parceiro o ajudou muito, chega às lágrimas. Em seguida o aniversariante anuncia a apresentação de seus alunos. Eles se alinham, aguardam enquanto se  procura a música certa; por fim, a turma dança um bolero. Acabou? Não, os esforçados alunos têm de dançar também um samba, para mostrar o quanto já aprenderam em tão poucot empo. Aplausos diplomáticos. Chega então a hora do mestre: ele chama a parceira para dançarem; mas é preciso esperar, alguém informa que ela ainda está trocando de roupa. Pode? Pode. Ela chega e aí há um desacordo total como cara do som, a música que ele põe no ar não é a que nosso artista queria, perde-se um mais um tempo até chegar-se a um acordo. Dançada (bem) uma música lenta, chega a vez de um samba (igualmente bom).

Vocês pensam que acabou? O aniversariante quer mostrar que possui múltiplos talentos e, não, não estou mentido, apodera-se do microfone e começa a cantar, e o que é pior, completamente desafinado. A turma de amigos que lota um canto do salão o ovaciona com entusiasmo, só que, a mim me parece, e quem sabe estou enganado, por pura gozação. O que acontece? O vaidoso e ingênuo homenageado anuncia que vai nos brindar com outra canção. Nessa brincadeira já se passou quase uma hora de interrupção do baile e enquanto isso o público esfria e se aborrece nas mesas, cochicha, faz caras e bocas de raiva e desalento – mas ninguém reclama, ninguém fala nada, com medo de criar atrito, para não parecer antipático, para não parecer um criador de caso. Só que essas pessoas pagaram para ir dançar num baile, elas têm direitos que deveriam ser respeitados.

Ninguém reclama, uma vírgula; uma pessoa resolve se dirigir aos organizadores do baile: este jornalista. Ele quer saber por quanto tempo mais vai ter de esperar pela volta da orquestra. “Não posso fazer nada” esquiva-se a organizadora com um sorrisinho amarelo, “é a festa de aniversário do fulaninho”. Isso já sabíamos; e então retrucamos que, se se tratava de evento particular, tivesse sido colocado um aviso na entrada do estabelecimento; nesse caso, entrava quem quisesse. As pessoas ali em sua maioria tinham ido para dançar, e pagaram por isso, não para assistir sem aviso um show de gosto mais do que discutível e muito mal organizado. Enquanto falam, o aniversariante continua a se esgoelar ao microfone, massacrando uma terceira canção. E depois passa-se à cantoria do parabéns, corte de bolo e outros rapapés de praxe.

Quando o baile por fim recomeça, é sem a mesma graça e vibração; e boa parte dos presentes vai dando o fora, inclusive o autor destas linhas.

O que se quer dizer com tudo isso? Que não se deva comemorar aniversários em bailes? De jeito nenhum. Um baile é um local de encontro social, presta-se bem à confraternização. Mas seus organizadores e os próprios homenageados precisam ter um mínimo de bom senso, deslumbrar-se menos com o som da própria voz, olhar um pouco menos o próprio umbigo e um pouquinho mais o interesse alheio. Fazer uma apresentação: ótimo, maravilha, é sempre um prazer assistir. E ponto final. Baile não é local para fazer marketing da própria escola. Falação, que seja curta e objetiva. Na festa do Oscar, o premiado tem um minuto para dar o seu recado e fazer os seus agradecimentos: isso é respeitar o público. E caberia aos promotores estabelecer limites, do tipo: você tem um intervalo de dez minutos do meu baile para comemorar o aniversário e fazer sua apresentação; e estamos  conversados.

Já contei aqui em outra ocasião de um baile do Bola Preta truncado pela solenidade de troca, cheia é claro de elogios mútuos, da diretoria que saía pela que entrava. Eram tão boas ambas que o Bola fechou as portas falido e vai reabrir em breve na Lapa, e isso por ter sido presenteado de mão beijada com uma sede nova.

Alguém quer estimular seus jovens alunos a dançar, quer exibir o seu trabalho? Tudo bem, mas baile não é vitrine; faça uma festa particular, com os amigos e familiares, nunca num espaço público onde são cobrados ingressos; que não se castigue quem não tem nada com isso. Este jornal não é mal humorado; ele apenas sempre defendeu um direito básico dos dançarinos: o de dançar.

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