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O barquinho vai...

Por Francisco Ancona

Atlântico Sul, inverno de 1970. O Eugenio C desliza vigorosamente sua grandiosidade rumo a Buenos Aires. Aquele que ainda hoje é considerado o maior mito entre os transatlânticos que já escalaram a costa brasileira, levava a bordo dois personagens marcantes de nossa música popular: Vinicius de Moraes, o poeta do amor, e o violonista Toquinho, que passaria a ser seu mais constante parceiro a partir dessa travessia costeira. Era a primeira turnê dos dois - passariam um mês na Argentina - das dezenas que fariam pelo mundo, na década a seguir. Aproximados por Chico Buarque, tinham se conhecido apenas alguns dias antes do embarque no porto de Santos.

Inspirados pela instantânea empatia e intimidade que alguns dias de navegação são capazes de proporcionar, o resultado não poderia ter sido melhor: a bordo, nasceu a parceria que acabaria produzindo mais de 120 canções, cerca de 20 LPs, dezenas de sucessos. No rastro daqueles dias, vieram “Tarde em Itapoan”, “Regra Três”, “Samba da Volta” e quantos sambas mais. No salão Ambra, localizado na proa e que recebia os passageiros da primeira classe, Vinicius curtia doses de malte escocês e Toquinho dedilhava as cordas do companheiro violão a cada fim de noite. Nas poltronas ao redor, entre saborosas conversas e fartos brindes à vida, deslumbrados cruzeiristas cantarolavam canções de bossa nova propostas pela dupla, além de testemunhar a gestação de novos sucessos.

Esta passagem, verídica e integrante da biografia de Vinicius de Moraes, eventualmente confessada por Toquinho em seus shows, confirma aquilo que se constata quando inebriados pela atmosfera envolvente de um navio: não há cruzeiro marítimo sem trilha sonora. Seja para estimular os passos de dança a dois, como animar jogos vespertinos ou festas noturnas, ou mesmo marcar o início de um romance, sempre haverá boa música a pontuar cada momento especial.

Muitas vezes ao vivo, a música é um ingrediente indispensável para imortalizar emoções em alto mar. Que tal exercitar a memória e resgatar alguns protagonistas e suas canções, em décadas de navegação pela costa brasileira?

Elegendo o advento do Eugenio C (inaugurado em 1966) como ponto de partida deste grande passeio musical, volta à baila a orquestra que levava o nome do navio, e que abria seus bailes com a sigla “Si Si Si Lá Lá Lá Lá” - uma espécie de fox composto especialmente para anunciar suas performances. O salão Opale mudava de temperatura e a pista de dança ficava pequena em segundos. Os músicos italianos, sempre elegantes em seus ternos marinho ou cinza, propunham os sucessos românticos de Gianni Morandi, Gino Paoli e Sergio Endrigo. “Sapore di Sale” e “Io che amo solo te” eram os hits da época. Sem falar dos medleys do Quartetto Cetra e das ingênuas canções de Edoardo Vianello – “Abbronzatissima”, “Oh mio Signore” e outras.

Nos anos 1970 e 1980, os cruzeiros se intensificaram por aqui, e com eles os bailes de casais acabaram se tornando um clássico desta modalidade de férias. O código de figurino para eles então já substituia o black tie por ternos bem cortados. Para elas, longos escuros ainda eram freqüentes, não apenas nas noites de gala. “Champagne”, “Roberta” e outros sucessos de Peppino di Capri e Fred Bongusto ganhavam espaço no repertório dos grupos “I Gentlemen” (nome sintomático da época que se vivia...), “Angela Benn Band” e dos brasileiros “Transito Livre” e “Star Five”.

Já nos anos 1990 o som pop ganhou espaço, os ritmos disco imperavam, Gloria Gaynor, Tina Turner e o Village People atravessaram a fronteira das boates dos navios, tomando conta das nobres pistas dos salões sociais. Se o blazer começava a escassear entre os homens, os tubinhos básicos ganhavam espaço nas bagagens femininas. Surgiam as festas “revival”, os anos 70 voltavam à moda, os italianos do “Magic Sound” e “Ciccio´s Band” eram ovacionados, os nossos “David Costa Band”, “Musikromma” e “Free Som” não ficavam atrás. Johnny Costa puxava o trenzinho ao som de “Milla” e “Dança do Vampiro”. Música para embalar festas tropicais nos decks ao ar livre em noites de verão.

Enquanto isso, grandes nomes da MPB luziam nos palcos dos nossos teatros flutuantes. A partir das inesquecíveis apresentações de Nora Ney, dama do rádio e freqüente presença do teatro “La Scala” do Eugenio C na década de 1980, a relação de talentos da música nunca parou de crescer a cada verão: Toquinho, Carlinhos Vergueiro, Maria Creusa, Jair Rodrigues, Martinho da Vila, Célia, Rosa Marya Colyn, Eduardo Araújo e sua eterna Sylvinha, Klébi Nori, Tony Angeli, os Três Tenores Brasileiros, Dick Danello e os convidados especiais Wilma Goich, Nicola di Bari, Jimmy Fontana, Tony Dallara, Edoardo Vianello, Enza Flori, Duo Romanelli...emoções sem limites na forma de solos afinados e acordes carregados de swing.

Ficaram registradas em VHS (e em DVDs) as matérias e programas especiais gravados para as TVs: Zizi Possi, Sá & Guarabyra, Jessé, Trio Los Angeles, Paulo Ricardo, Sidney Magal, Christian, Salgadinho, KLB - independente do gênero, mas sempre com qualidade, a música sempre foi protagonista de nossos navios pelas águas brasileiras.

No verão 2009, quem navega com a Costa Cruzeiros tem o privilégio de se deliciar com dignos sucessores dos nomes acima. As seleções dançantes das bandas brasileiras Lizzi, Melodia Brasil e David Costa, a versatilidade dos duos Free Som, Phocus, L&M, Audrey Murbach, e Nadyne, as performances-solo de Glauco Fulco, Albano Sales e Flavio Deusedino, o virtuosismo do repertório e interpretação peculiar do Duo Mão na Boca... e mais todo o cast italiano a bordo, completam um festival de boa música para dançar, ouvir e registrar uma experiência prazerosa de férias. E ainda as performances vocais de Camila Titinger & tenor, Yvette Matos Trio e Tony Angeli no teatro.

Enquanto isso, Roberto Carlos embarcou no Costa Magica e incluiu mais um “Projeto Emoções em Alto Mar” em sua interminável biografia (e já agendou nova edição em 2010, no Costa Concordia). Os românticos Zezé di Camargo & Luciano escolheram rota semelhante, levando suas baladas – e inúmeros fãs - para navegar.

Com elenco tão especial, para quem ama dançar a conclusão é simples: boa música a bordo nunca há de faltar. Cada navio Costa que zarpa, proporciona inúmeras oportunidades para o exercício deste prazer. A surpresa deste verão traz um nome carismático : Roberto Luna, o rei da noite, que atravessa décadas emprestando sua grande voz a momentos que conquistam a eternidade. Imaginem o privilégio de se dançar um bolero ou um samba-canção com o velho Luna vestindo seu negro traje e impecável gravata, conduzindo a orquestra no palco do Gran Bar Salento. Aquele lenço que habita o bolso de seu paletó há de acrescentar mais uma boa história a seu vasto repertório.

A tardinha cai...e assim o Dançando a Bordosegue sua rota musical-dançante. Em clima de “La noche que me quieras...”.

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