Música para os olhos
Por Francisco Ancona - Consultor de marketing da Costa
O Brasil vivia a euforia do lançamento do Plano Real. O presidente Itamar Franco, entre Fuscas e o famoso camarote do Sambódromo, curtia seus últimos meses de governo. Fernando Henrique Cardoso, então ministro da Economia, ligava o turbo para a campanha presidencial em que bateria Lula mais uma vez. Era outro século, outro país...
No segmento dos cruzeiros marítimos, a costa brasileira ainda nem sonhava em receber as dezenas de transatlânticos que a invadem atualmente a cada verão. A Costa Cruzeiros, ex-Linea C, ainda operava o Eugenio C - um mito dos mares, então já com 30 temporadas no Atlântico Sul. A ordem era modernizar o entretenimento a bordo e, sobretudo, renovar o público das viagens. Rejuvenescer, incrementar as atividades de lazer, atrair gente que nunca pensara em um cruzeiro como alternativa de férias. Por aqueles tempos, meados de 1994, uma notinha de pé de página no Meio & Mensagem, semanário que circula ainda hoje entre publicitários e gente de marketing, dava conta do lançamento do jornal Dance. Um jornal de dança de salão. Eu me perguntei, então: o que será dança de salão ?
Com alguns projetos temáticos sendo esboçados, visando promover uma revolução no conceito dos cruzeiros marítimos por aqui, aquelas linhas provocaram minha curiosidade. Era necessário descobrir novos nichos que atraíssem grupos de afinidade. Que agregassem um componente impactante e sedutor, e trouxessem para os navios novos consumidores.
Reunião agendada, aparece em minha sala Milton Saldanha, cheio de sonhos. Contou-me com orgulho seu currículo de jornalista na grande imprensa (sólido e respeitável, diga-se). E assumiu que a pequena publicação especializada seria a oportunidade de unir o útil ao agradável - ele que nutria pela dança de salão uma crescente paixão (bem, isso transparecia à distância). Então pensei: meu desafio é grande, trazer novidades para os navios... O que preciso é disso, alguém que acredite em algo e lute para fazê-lo acontecer. Estava selado o acordo. O jornal Dance, na ocasião no número 1, era o novo parceiro da Costa Cruzeiros, no recém-nascido projeto temático: o Cruzeiro Dançante ao Prata.
Os meses seguintes foram fervilhantes. Ricardo Liendo, escolhido como responsável técnico do evento, se esmerava em abrir portas de clubes, bailes, escolas para que o Eugenio C emplacasse sua novidade. Milton Saldanha dava o respaldo editorial, abrindo espaço mensal para o evento inédito. Além disso, usava sua influência e relações com dançarinos, promotores, donos de casas noturnas. Aquele cruzeiro tinha se tornado a menina dos olhos de todos nós. A cada edição, as novidades eram contadas para os leitores do Dance e circulavam rapidamente no ambiente da dança de salão. E assim chegou o esperado dia do embarque.
Nossa equipe chegou cedo a Santos. Fiz as devidas apresentações ao comando do Eugenio C, combinamos as atividades com o diretor de cruzeiro... Aulas, bailes, festas dançantes. Milton embarcou com sua câmera fotográfica para registrar tudo. A inconfundível e amável figura de Jovino Garcia (Avenida Clube) por testemunha, e mais diversos praticantes de dança de salão, e lá se foi nosso barco rumo à capital argentina. Sucesso - tanto, que a partir dali a dança chegou para ficar nos navios. Nunca mais houve um cruzeiro sequer da Costa Cruzeiros no Brasil em que não houvesse dançarinos profissionais trabalhando a bordo. Entendem agora a importância daquele primeiro evento? Nos anos seguintes, deixamos de fazer um cruzeiro temático dançante - optando por incorporar equipes de dança em todas as viagens, mini cruzeiros, Natal, Réveillon, Carnaval, férias. Assim, passamos a nos relacionar com cordial e respeitosa distância.
A cada mês o correio me trazia o jornal Dance, de quem me mantive fiel leitor dos editoriais (sensatos, mas sempre apaixonados), das matérias e entrevistas de caudaloso conteúdo e texto brilhante, das deliciosas notas do Leveza do Ser.
Chegou então o século 21, mais navios passaram a vir para o Brasil, o mercado de cruzeiros crescia. Enquanto isso, cada vez mais escolas, bailes, eventos e ritmos colocavam o Brasil para dançar. E o Dance junto, alimentando e documentando este processo. Estava chegando a hora de mais uma grande realização. Eu precisava ouvir a voz da experiência do Milton de novo.
Desta vez, foi um almoço na região dos Jardins, em São Paulo, na companhia de Theo & Monica - já então casal-símbolo de dançarinos da Costa Cruzeiros. Naquela mesa nasceu o Dançando a Bordo. Difícil relatar o entusiasmo juvenil do Milton na sobremesa. Ele fez o plano de divulgação na hora, listou as escolas e bailes parceiros, agendou ações e eventos, disparou telefonemas, contagiou a mim e aos jovens dançarinos - que passaram a ter pela frente o maior desafio de suas vidas até então: dar forma a um evento que enobrecesse a dança de salão brasileira. Que, de fato, fizesse história.
O resto é história recente. Quem esteve a bordo sabe da emoção de experimentar o Dançando a Bordo - que estreou num navio para 1.400 pessoas, e agora acontece num mega-navio para 3.800. Estamos a caminho da sétima edição do maior cruzeiro dançante do mundo, que acontecerá no Costa Concordia em fevereiro de 2010. A cada ano, uma edição caprichada do jornal circula no navio, além do circuito habitual do Dance. Pelo caminho, e fruto direto do grande sucesso deste projeto, surgiram o Cruzeiro Tango & Milonga (já na terceira edição, sempre rumo a Buenos Aires, como seu nome sugere), e agora o recém nascido Movida Latina - que estréia em março de 2010, para dançarinos aficcionados de salsa, samba, zouk. Muitos passos dançantes mais na costa brasileira, muito mais trabalho para nossos profissionais, muita alegria e satisfação para nossos hóspedes. Uma linda trajetória.
Um capítulo especial destas lembranças deve ser dedicado às pessoas talentosas que se envolveram nestes projetos todos, ao longo destes 15 anos. Ao pioneirismo e entusiasmo do Milton, devemos o privilégio de termos convivido com gente da envergadura de Maria Antonietta, Juan Carlos Copes, Carlinhos de Jesus, Jaime Arôxa, e todos os jovens mestres que têm protagonizado os cruzeiros dançantes - sempre sob a condução firme e o brilho no olhar dos maravilhosos Theo & Monica.
A Rubem Mauro Machado (irmão mais velho de todos nós, além de sê-lo de sangue do Milton), o justo tributo pela inspiração constante, a sabedoria em cada palavra e olhar, pelas crônicas e reportagens dignas de moldura. Sem ele, o Dance não seria tão bom como é. Um privilégio ter uma assinatura dessas a cada edição, e um prazer conviver com sua gigantesca simplicidade.
Hoje, ao contrário de 15 anos atrás, posso afirmar que sei o que é dança de salão, e por isso agradeço e parabenizo seus leitores e seu editor. Espero que o Dance continue unindo a classe, aproximando dançarinos, e servindo de referência ética, além de veículo de informação competente. Se para dançar é necessária música para os ouvidos, para acompanhar a dança de salão brasileira é indispensável ler o Dance - a música para os nossos olhos.
Acesse
www.jornaldance.com.br
www.gentequedanca.com/miltonsaldanha
www.gentequedanca.com/jornaldance
Veja Também
- Sampa Dança celebrou nossa diversidade e competência
- Philip Miha e Rodrigo Delano, exemplar soma na liderança do zouk
- Entrevista: Karina Carvalho e Rodrigo Oliveira
- A história do zouk
- Os 15 anos do Dance - Pioneiro na dança de salão
- Os 15 anos do Dance - O que mudou na dança de salão
- Entrevista: irmãos Vladimir e Andrei Udiloff
- Parece que foi ontem



