Mesmo sem apoio oficial o Baila Floripa foi um sucesso
Por Milton Saldanha
Os jovens que há anos se organizam em torno da ACADS – Associação Catarinense de Dança de Salão, estão sempre dando lições. Uma delas foi agora, na oitava edição do Baila Floripa. Mesmo com escassez de recursos, fizeram um evento bonito e merecedor de todos os elogios.
Sempre que eu volto do Baila Floripa e agora foi pelo oitavo ano consecutivo, ou seja, cobri todas as edições chego em São Paulo extremamente feliz. Não faltam razões para isso. São tantas, que nem sei por qual começar. Aquela moçada que mantém a mais bem-sucedida entidade de dança de salão do Brasil, a ACADS – Associação Catarinense de Dança de Salão, ano após ano vem dando provas de capacidade, talento, garra e muita vontade de que as coisas aconteçam.
Neste ano, por exemplo, não tiveram nenhum apoio financeiro oficial para colocar em marcha o Baila Floripa – VIII Mostra de Dança de Salão de Florianópolis. Contaram apenas com apoiadores isolados e principalmente da iniciativa privada, que ajudaram como puderam, com realismo, dentro também das suas possibilidades. Faço questão de citar: a maravilhosa Costa Cruzeiros, que foi representada por Theo e Monica; Bristol Hotéis & Resorts; Baila Costão, representado por Roger Berriel; Capezio; Junior Cervila Shoes; Lorenzo´s; Floripa Shopping; Sampa Dança, representado por Andrei Udiloff; TransFloripa; e também, com muita satisfação, o Jornal Dance, representado por este repórter.
Mesmo assim, sem dotação oficial, ainda que fosse modesta, o evento transcorreu com o mesmo brilho dos anos anteriores, levando ao palco dançarinos e companhias da melhor qualidade, que se deslocaram em muitos casos de carro dos mais diversos e até distantes estados. O festival, de 30 de abril a 3 de maio, ofereceu no Hotel Bristol Castelmar aulas de dança de diversos ritmos, para todos os níveis, e com salas cheias para iniciantes, o que é sempre a melhor notícia. Além, ainda, de concurso de dança no Floripa Shopping e espetáculos de palco no recentemente inaugurado Teatro Pedro Ivo Campos, uma casa de boa qualidade, embora menor e mais distante que o Teatro do CIC, onde sempre aconteceu o Baila Floripa, e que está em reformas.
Como em qualquer entidade do planeta, seja a Fifa, na Suiça, ou o clube de bolinha de gude de uma cidadezinha qualquer, a ACADS não está imune a eventuais divergências entre seus associados. Isso faz parte da democracia e das relações entre aspessoas. Mas essas coisas vão passando e a entidade vai ficando, como tem que ser, e hoje merecedora do respeito dos dançarinos de salão tanto locais como de todo o Brasil. Seu trabalho, para citar só os líderes, mas lembrando que todos estavam sempre cercados de eficientes colaboradores, começou com o batalhador e incansável Alexandre Melo; continuou com um casal muito querido, Daniel Pozzobon e Sheila Ludwig; e agora está nas mãos de um jovem que provou também ser capaz, Guilherme Abilhôa.
O descaso das autoridades deste país com as artes e a cultura não é de hoje e não surpreende. Surpreenderia se fosse diferente. E em Santa Catarina, tanto na esfera municipal como estadual, a foto não é diferente. Aquele belo Estado passa por uma fase de sucateamento da sua cultura, sendo o caso mais dramático o abandono da Fundação Franklin Cascaes, que vinha promovendo muitos eventos importantes, entre eles um festival de danças clássicas. Agora está tudo praticamente parado.
A dança de salão é uma das mais importantes expressões de alegria do povo brasileiro. Além, hoje, de ser igualmente um movimento artístico merecedor de atenções e respeito, tanto quanto qualquer outra forma de expressão do espírito e da criatividade. É inconcebível e inaceitável que as autoridades continuem cegas a isso. Mas os políticos não são os culpados. Todo mundo sabe que eles estão lá para cuidar de si próprios, num corporativismo escandaloso de defesa de privilégios, sem prestar contas a ninguém, mesmo sabendo que o dinheiro é público, portanto nosso. Os culpados são os eleitores que colocam essa gente lá, sem a mínima cautela na hora de votar.
O Baila Floripa não pode ser reduzido a um encontro de alegres que querem dançar. Isso também faz parte, e nada tem de escandaloso – escandaloso é roubar os cofres públicos – mas é preciso entender que se trata acima de tudo de um movimentoartístico e cultural, sério, com repercussões também na imagem do Estado e sua capital, e no incentivo ao turismo.
A cegueira oficial, para não dizer outras coisas, é no mínimo lamentável. Este país é pródigo em falcatruas. Mas na hora de se apoiar as iniciativas da sociedade, daqueles que querem trabalhar e tomar iniciativas, tudo é difícil, quando não impossível, porque nos falta uma classe dirigente, não importa de que compromisso partidário no plantão, que pense, um dia sequer, no país e no seu povo.
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