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Melhorar o baile tem que ser um compromisso coletivo

Por Milton Saldanha

Os bons dançarinos conhecem esta palavra: deslocamento. O baile tem que rodar para ser mais gostoso. Mas infelizmente não é assim. Isso pode ser melhorado? Depende. Se a gente aprender a dançar, sim.

Alguém, em qualquer época, ousaria afirmar que Fred Astaire não dançava bem? Certamente você faz parte dos milhões de pessoas que até hoje babam com as cenas do mestre deslizando e rodopiando com sua também magistral parceira, Ginger Rogers.

Agora responda: eles dançavam sem sair do lugar ou se deslocavam? Reveja os filmes, por favor, se tiver alguma dúvida. Dizer que se deslocavam é pouco. Eles faziam verdadeiros passeios, com suavidade mas extrema agilidade, ao longo do vasto cenário montado para suas coreografias.

Então não sou eu falando, é o mestre Fred Astaire ensinando, com a melhor das aulas que é o testemunho das suas cenas imortais: dançar bem, entre outras coisas, é saber se deslocar, rodar intensamente o salão.

Ou seja, o que a gente menos vê nos bailes, no Brasil ou em qualquer outra parte do mundo. Logo, amigos, alguma coisa muito importante está faltando na nossa dança. Seria bom a gente começar a refletir sobre isso.

Esta é a crítica mais severa que faço aos nossos bailes. Existe uma honrosa exceção e seria injusto não lembrar: a turma das danças gaúchas. Eles sim sabem fazer um baile rodar bonito e com energia. Quem ficar atravancando será atropelado pela roda humana que avança no consagrado sentido anti-horário. É uma lição de como dançar bem e de como fazer um baile realmente gostoso.

Este tema não é novo aqui no Dance. Aliás, há 15 anos estamos tratando dele. O baile travado é o que chamo de praga, erva daninha, que você corta aqui e ali, mas sempre volta. Atribuo várias causas ao problema. A primeira, e mais difícil de extirpar, é nossa incompetência coletiva. As pessoas não se deslocam porque não sabem dançar. E os que sabem não conseguem se deslocar porque os demais estão parados. Está formado o impasse. Excluo dessa crítica os iniciantes, que estão aprendendo agora, e são bem-vindos aos bailes. O iniciante tem que ser aceito com compreensão e generosidade. A crítica se aplica apenas aos veteranos das pistas. Estes, por favor, já deveriam saber coisas tão elementares.

O dançarino tradicional dos bailes, aquele refratário ao ensino formal de dança de salão, o anti-acadêmico, já encontrou os bailes assim. Então para ele isso é normal. Assimilou essa cultura. Por outro lado, a safra dos dançarinos  que teve sua origem nas academias, recebendo aulas, ressalvadas as poucas exceções de sempre, não teve bons professores que ensinassem, além dos passos, o que é um baile de qualidade. Como eles aprendem os passos na escola sem sair do mesmo lugar, acabam pensando que no baile também é assim.

Numa das vezes em que fui a Buenos Aires fazer aulas de tango, com meu pavio curto desisti de um professor famoso no meio da sua aula. Ele me pediu para fazer o passo que estava ensinando. Saí dançando com a parceira, para entrar no passo da aula. Ele me interrompeu bruscamente, pedindo o absurdo de partir do ponto zero. A situação se repetiu três vezes e ficou insuportável. Foi quando percebi que o cara dança divinamente, mas não sabe  ensinar.

Ora, dança a gente aprende é dançando. Inclusive porque é a forma mais fácil e agradável. Eu só posso entrar num determinado passo, no caso o da aula, quando sentir que estou equilibrado, no eixo, em perfeita conexão e sintonia com a dama. Partir simplesmente do ponto zero é uma estupidez. Isso é admissível e até necessário como demonstração do professor e não na execução prática do aluno. O bom professor é o que manda a turma dançar e só fazer o passo da aula no momento certo, principalmente quando a música ensejar essa atitude, e não de forma automática e aleatória. E se não for assim, desculpem, estará formando robozinhos e não dançarinos. Tanto é verdade que conheço, e certamente você também conhece, gente que dança no baile rigorosamente dentro da contagem que aprendeu em classe. Tudo marcadinho e sem espontaneidade. Improviso, então, nem  sonhar. Convenhamos, dançar assim, abdicando do prazer de comandar o próprio corpo, é muito chato. E nenhuma mulher merece.

É esse tipo de professor, castrador típico, que contribui para o baile atravancado, porque não percebe o principal e básico: tudo parte do corpo em movimento, não do corpo estático (o tal ponto zero, favor não confundir com ponto G), e tem sua hora para acontecer. É preferível, inclusive, se perceber que não vai dar certo, abortar o passo e improvisar algo em seu lugar do que arriscar executar algo mal feito, e portanto, feio.

Repito aqui minhas homenagens à grande mestra que foi a Madame Poças Leitão, que formou Andrei Udiloff, Stella Aguiar, Carla Salvagni, Chico Peltier, Roberto Mendoza, Marcello Palladino, entre outros que depois se tornaram  professores e donos de academias. Além, claro, da geração sucessora, com o casal Silvia e Eduardo Poças Leitão, meus amigos e vizinhos de porta, na Chácara Santo Antonio. As aulas da Madame, que cheguei a assistir num salão do colégio Pueri Domus, na rua Verbo Divino, ensinavam aquilo que na minha opinião é o melhor baile, rodando intensamente. Aulas maravilhosas, num estilo próprio e da época, bem caminhado e sem muitos enfeites. Com o célebre chicotinho, uma brincadeira, claro, ela ia empurrando a perna dos lerdos, mandando avançar. Isso era saber  ensinar a dançar, ao contrário do argentino obtuso que citei acima. E não vai aqui nenhuma crítica  generalizada, falei de um caso isolado. Posso apontar uma extensa lista de excelentes mestres portenhos, começando pelo fabuloso Mingo Pugliese. Além de lembrar que lá, como aqui no Brasil ou em qualquer outro país, há de  tudo, do mais admirável ao mais lamentável professor.

Outra atenção que o baile requer é seu fluxo. Dançar em linha, ou respeitando a ronda do baile, como dizem alguns. Você se desloca dentro de um círculo, em faixas imaginárias, no sentido anti-horário. Como nas faixas de trânsito para os carros, nas ruas. Jamais em diagonal, atravessando do meio do salão para as pontas, ou vice-versa. E mais jamais ainda contra o fluxo, na contramão. Não dê risada, já vi isso acontecer. Em diversas cidades por esse Brasil, inclusive capitais de estados, ainda há bailes sem nenhuma norma de circulação: cada um vai para onde bem entender e achar espaço. São verdadeiros festivais de trombadas, um caos total.

Conheço mais de um casal, com vinte anos ou mais de bailes, que até hoje não assimilaram as regras mais elementares de circulação na pista. Não dançam em linha reta, é diagonal o tempo inteiro, fora os momentos em que recuam em pleno salão lotado. Ninguém, muito menos eu, tem coragem para falar. Não é maldade, falta-lhes conhecimento técnico; vão passar o resto da vida, ainda que inocentemente, avacalhando o baile.

Não são únicos. Até alguns professores, que deveriam dar bons exemplos, cometem tais infrações. E muitas vezes são também professores que comandam suas damas em movimentos perigosos, quando a pista está lotada.  Nada contra o show, pelo contrário, gosto do baile com gente que dança bem. Mas, por favor, não em pista cheia.

Uma questão final a comentar é o uso de habilidades no baile. Refiro-me a passos e efeitos coreográficos. Tornou-se quase uma lei, não escrita mas muito falada, e da qual discordo totalmente, que no baile “não se faz isso, nem aquilo”. Uma montanha de restrições. Então pergunto: por que a gente aprende passos nas academias? Se eu não posso fazer nos bailes os passos que aprendo, para que servem? E para que servem tantas escolas e  professores?

Amigos, se for para dançar só no feijão com arroz, sem maior ousadia e criatividade, para que ficar gastando tempo e dinheiro com aulas, práticas, estudos, pesquisas?

Creio que chegou a hora de começar a derrubar tabus.

Um baile é para curtir em toda sua plenitude, com cada um fazendo tudo que seja capaz. Só que tem que existir bom-senso. Isso é outro departamento. Se a pista estiver lotada, fica-se no básico, em respeito ao espaço coletivo. Mas se houver espaço, sem risco a ninguém, mande bala, divirta-se e aplique sim todos os seus conhecimentos e principalmente improvisos.

Tenho uma antiga teoria sobre isso. O amador pode tudo, o profissional não. O amador não tem compromisso com sua imagem, ao dançar, como tem um profissional. Se o amador não fizer no baile o que aprendeu, fará onde  e quando? Já o profissional inteligente se preserva, guarda o melhor que sabe para seus shows. Essa é a diferença.

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