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Junior Cervila lança “Exodo” e marca seu lugar na memória da dança

Por Milton Saldanha

Junior Cervilla, hoje metade brasileiro, metade argentino, no coração e na arte, foi uma presença forte no 6º Dançando a Bordo, de 14 a 21 de fevereiro, no navio Costa Magica.

E nem precisou subir ao palco do belo e amplo Teatro Urbino, porque estava sem parceira para brilhar. Ou melhor, subiu, mas não para dançar e sim para fazer uma palestra agradável e esclarecedora, derrubando mitos que cercam o tango, sua principal especialidade, e onde lançou e apresentou trechos do seu filme em DVD “Exodo – Uma busca permanente”.

O filme passou integral e o tempo todo num dos canais da TV Costa Magica interna, durante o cruzeiro, conseguindo a rara proeza de reter pessoas em suas cabines por mais tempo que o habitual, porque realmente não dava para se desgrudar os olhos da telinha.

“Exodo”, que contou com o patrocínio cultural da Costa Cruzeiros, deve ter sido o filme mais barato do mundo. A “equipe” teve duas pessoas: o cinegrafista e Junior Cervila. O primeiro, como é óbvio, filmou Junior falando. Eles estavam em Nova York e o cenário escolhido foi o rio Hudson, que circunda a famosa ilha de Manhattan. Ao fundo, dominando a paisagem, a imponente Ponte do Brooklin. Gravaram por alguns dias as sonoras, material a ser editado, e depois Junior fez todo o resto da decupagem (seleção de imagens e falas) à edição final. Entrou em cena aqui, sem trocadilhos, o curso de cinema que havia feito nos primeiros anos da carreira. E, mais ainda, a experiência de ter trabalhado com Carlos Saura em “Tango”. Ele estava todos os dias no set de filmagem, mesmo quando nada tinha para ensaiar ou gravar.

“Exodo” envolveu no total apenas três meses de trabalho, um para as gravações e reunião de cenas do arquivo pessoal do bailarino e dois para a edição final. O resultado é um belíssimo documentário que já está incorporado à História da dança e, particularmente, do tango, porque estamos falando, sem nenhum favor, de um dos maiores bailarinos do gênero no mundo.

Perdi a conta de quantas vezes já assisti “Exodo”, desde o navio e depois em casa. E sempre descubro um detalhe a mais para apreciar, tirando realmente o chapéu para o talento, versatilidade, agilidade, picardia, maestria e genialidade deste ainda jovem bailarino e mestre que é Junior Cervila.

A estrutura do filme, linear e cronológica, é de uma simplicidade absoluta. Não tem baboseiras, vai direto ao que interessa, que é ouvir a história de sua carreira, contada de viva voz por ele, com cortes onde entram cenas antológicas de dança. Não teve sequer texto e roteiro, foi falando de improviso, como já fez milhares de vezes na dança, puxando pela memória. De vez em quando disputava a cena com algum barco de turismo passando as suas costas, quase em primeiro plano. Aproveitou um deles para soltar uma frase bem encaixada com a idéia de “embarcar numa boa oportunidade”, ou algo parecido.

O público se diverte vendo primeiro um garotão de malha justa no corpo, no balé clássico. Depois, dançando lambada nos programas populares de Silvio Santos e Hebe Camargo. Vence com a primeira parceira, Adriana Locilento, alguns concursos paulistas de dança. É entrevistado por colunistas sociais e vai por aí, abrindo o baú do passado.

A parte mais saborosa é quando começa a contar sobre seus primeiros anos morando em Buenos Aires. Para ganhar o pão de cada dia e pagar suas aulas de tango trabalhou como dançarino-humorista num programa popular de TV pra lá de brega. Divertiu-se muito, como mostram as cenas. E, acreditem, sempre dançando muito bem. Não havia nem ensaio, era a mais pura chanchada, o diretor mandava o grupo entrar e improvisar. Percebe-se a zona total e ficou mais cômico um momento em que Junior e outro rapaz entram dançando, surpreendem uma cantora antes do final da música e tiram a moça de cena carregando-a nos ombros. Ela sorri amarelo durante a carona e consta que ficou muito puta da vida.

Depois dessa parte alegre e folclórica começam as imagens do tango e dos grandes espetáculos, em diferentes fases e nos mais diversos pontos do mundo. É quando Junior Cervila se mostra por inteiro, com fantásticas e diferentes parceiras, no auge da forma física, saradão, em cena com o torso nu e suado, para deleite das mulheres e desgosto dos barrigudos. Mas para quem pensa que ali só tem tango, um rápido take mostra nosso herói arrasando num samba de gafieira e tão bom de samba no pé que fez lembrar os grandes passistas que de vez em quando acompanhavam as mulatas do inesquecível Sargentelli.

Somando tudo, do balé clássico, lambada, sevilhanas com cintura fina, rock, humor, samba, salsa e... tango! O que temos em “Exodo – Uma busca permanente” é  um painel do talento brasileiro mesmo em ritmos importados de outras culturas, quebrando esse mito do nacionalismo musical-dançante. Como observou Junior em sua palestra no navio, ninguém precisa ser argentino para dançar bem tango, nem brasileiro para dançar bem samba. Seu sucesso na Argentina, como ele próprio lembrou, é a prova mais cabal disso. Acrescento os atuais bailarinos de salsa e zouk do Brasil, já nivelados ou alcançando com rápida evolução os melhores do Caribe, como provam os recentes concursos internacionais.

Lógico, a arte não tem fronteiras, não seleciona os seus pela terra onde nasceu, língua, cor da pele ou formato dos olhos. Dança é expressão artística, o corpo seu instrumento, logo dançará bem quem tem talento, e não importa a modalidade e ritmo, menos ainda o país de origem e proliferação. O rock é norte-americano, mas os argentinos são ótimos nisso, porque há várias décadas tocam nos bailes e milongas, todo mundo aprendeu. Se tocassem samba e forró, o que jamais acontece, aos poucos eles também aprenderiam. Do mesmo jeito que estamos evoluindo a passos largos no tango, já com admiráveis dançarinos de shows.

Nada disso impede que os demais, ainda que desprovidos da aceitação parcial ou total do corpo para o movimento, também dancem e se divirtam, dentro dos seus limites.

Nos bailes, ao contrário do que faz a maioria dos estrelados, Junior não fica posando de sua majestade imperial. Pelo contrário, assume uma postura de extrema simplicidade, quer é se divertir, brinca com os amigos, faz boas piadas. E se dança bem, é porque não sabe fazer diferente, isso já está incorporado nele, com impressionante naturalidade. Mesmo assim sempre rouba a cena, os olhos dos que estão nas mesas acompanham suas evoluções na pista, buscando sorver dali algum novo aprendizado, além do puro prazer que sempre é ver alguém dançando com perfeição.

“Ninguém jamais dançará como outro, cada corpo é diferente, fará a seu modo”, observou aos incautos em sua palestra. Um belo ensinamento para quem sofre sonhando em se transportar para o corpo do seu ídolo. E também para professores de dança intransigentes e arrogantes, que cegos para as características físicas das pessoas, buscam espelhos e não alunos dotados de personalidade. Só essa frase já valeu a palestra! Vinda de um bailarino desse naipe vai ser difícil alguém ousar contestar.

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