Há 14 anos, no Eugenio Costa, o primeiro Dançando a Bordo
Por Milton Saldanha
Chegamos ao sexto Dançando a Bordo. E o que pouca gente sabe é que este, na verdade, é o sétimo. Porque existiu o Dançando a Bordo número zero, em 1995, no navio Eugenio Costa.
A dança de salão começava seu grande salto no início dos anos 90, deixando de ser apenas o baile de salão para alcançar os palcos dos grandes teatros, shows e aulas na TV. Começava o boom das academias e o intercâmbio dos estilos regionais de dançar, com o samba carioca conquistando São Paulo. Foi quando surgiu, pioneiro no Brasil, o jornal Dance.
Naquela fase de nascente ebulição, onde Carlinhos de Jesus e Jaime Arôxa já eram estrelas entre os bem-informados, circulava por São Paulo e ABC um jovem de 26 anos, bonito e cheio de ambição, ótimo dançarino, que fazia seu marketing baseado numa chance que teve de dar aulas e depois dançar lambada com Hebe Camargo, na TV. Hebe, com seu programa de entrevistas e o famoso sofá para os convidados, estava no auge da carreira. Participar do seu programa era sinônimo de grande prestígio, e Ricardo Liendo teve essa sorte. A foto (nesta página) que documentava a apresentação virou uma espécie de cartão de visitas de Ricardo e saiu na segunda edição deste jornal. Hoje, aos 40 anos, prestigiado no meio, fundador e dono da Cia Brasileira de Danças de Salão, ele ri quando lembra dessas coisas.
Ricardo, que começou na dança em 1985, tinha uma academia em São Bernardo do Campo e fazia apresentações nos jantares do Restaurante Florestal. Francisco Ancona, presidente da Ancona Lopez Publicidade e consultor de marketing da Costa Cruzeiros, começava a criar os cruzeiros temáticos nos dois navios que a empresa italiana mandava a cada verão para o nosso litoral. Um desses navios era o Eugenio Costa, também conhecido como Eugenio C, que deslocava 32.753 toneladas e tinha 218 metros de comprimento e 29 metros de largura. Seria, para os padrões de hoje, com suas 504 cabines, se comparado com a frota atual da empresa, um iate gigante. Mas naqueles anos era o único grande transatlântico que fazia longas temporadas por aqui e entrou para a História da nossa navegação turística. O Eugenio C deixou o estaleiro em 1964. Em 1966 fez sua viagem inaugural, levando membros da italiana família Costa. Navegou durante 40 anos, metade deles freqüentando o Atlântico Sul, mais precisamente o porto de Santos. Foi aposentado em 1996, deixando belas histórias e grande saudade.
Ricardo Liendo e Francisco Ancona se encontraram para discutir a idéia de um cruzeiro dançante no Eugenio C. Liendo reuniu um grupo de seis dançarinos e formou sua primeira companhia de dança, integrada por ele, a então namorada Adriana Cavalheiro, Karina Carvalho (Karininha), Anderson Isabella, Edson dos Santos e Elaine Ragonha. Os ensaios intensivos começaram imediatamente.
Nesse meio tempo Francisco Ancona ficou sabendo que tinha acabado de ser lançado o jornal Dance. Fui convidado para uma reunião na sua agência de propaganda, sem ter a mínima idéia do tema que iriam propor. Imaginei tratar-se de alguma campanha publicitária. Foi quando conheci Francisco, com sua habitual simpatia, e depois de falar detalhadamente sobre meus planos para o Dance, fui surpreendido com a revelação do cruzeiro dançante e o convite para que o jornal se tornasse seu promotor e divulgador oficial. Nem tinha o que pensar, aceitei na hora, tomado de grande emoção. Naquele momento tive a percepção e a certeza no sucesso do jornal.
A segunda edição do Dance, de setembro/outubro de 1994, com 15 mil exemplares, trouxe na capa o lançamento do inédito “Cruzeiro Dançante ao Prata”, com a profética chamada “Dez dias para nunca esquecer”. Dentro, um encarte colorido de 4 páginas, todo ilustrado, com textos meus e trabalho de arte da Ronie Prado, diretora de arte da agência. Na capa, em grande destaque, o título na mesma letra do logotipo do jornal: Dançando a Bordo.
Partimos do porto de Santos no final da tarde do dia 14 de fevereiro de 1995. Podemos dizer que é a data de nascimento do Dançando a Bordo. Notem, é o mesmo dia de início da edição 2009, 14 anos depois. Quando acordamos para o café da manhã o Eugenio C já estava atracado no porto do Rio. Era tudo tão embrionário, e nosso aparato ainda tão tímido, que diversos hóspedes e tripulantes sequer sabiam que aquele era um cruzeiro dançante. Mas não foi por falta de esforço de divulgação. Além dos 15 mil jornais (o estoque levado para o navio esgotou rapidamente), foram feitos alguns bailes temáticos, chamados “Uma noite a bordo”, com apoio de membros da equipe de animação do navio. Um deles, ainda lembro bem, foi no Zais.
Nossa rota incluiu um dia de sol magnífico na Baia de Angra. Saímos de saveiro para conhecer as ilhas e nadar. Depois, dois dias de navegação com bom tempo. Dias tão lindos, que o comandante italiano Piero Garrone, que falava português, não resistiu durante a passagem pelo Cabo Santa Marta, na costa catarinense, quando todos estavam na piscina pela manhã, e usou o som do navio para um lindo agradecimento à santa por ter nos proporcionado aquele momento esplêndido. Foi emocionante.
Passamos um dia e uma noite em Buenos Aires e depois navegamos para São Francisco do Sul, a histórica cidade catarinense. A entrada e saída da baia foi momento único em belezas naturais, e a navegação pelo canal sinuoso um show de perícia dos nossos marinheiros. Mais um dia no Rio e finalmente Santos, na manhã de 24 de fevereiro.
Ao longo de toda viagem a equipe de Ricardo Liendo fez apresentações de todos os ritmos, nas matinês dançantes e bailes noturnos. Em nenhum momento repetiu figurino, que era sempre temático, conforme o ritmo. Dançavam ora ao som da David Costa Band, ora com música mecânica, e sempre intensamente aplaudidos no salão lotado.
Naim Ayub, hoje diretor de cruzeiro no Costa Magica, era o chefe da equipe de animação e quase sempre quem fazia a apresentação da equipe de dançarinos. Depois comandava as brincadeiras de salão.
Entre os hóspedes, sempre entusiasmado, o conhecido Jovino Garcia, do Avenida Club, com quem dividi a cabine de camas beliche. Depois das apresentações a equipe trocava de roupa e voltava para o salão, inclusive as meninas, tirando o público para dançar. Foi a precursora do que se faz hoje com a equipe personal. Naquele tempo não existia essa atividade.
Invariavelmente, quando o baile acabava, Jovino Garcia, David Costa, seus músicos e eu ainda esticávamos por ali, bebendo algo e conversando até altas horas. Numa dessas noites o assunto esticou, falávamos sobre música, e David abriu o piano e passou a tocar enquanto nos explicava algumas coisas. De repente contou que o “Tico-tico no Fubá” é a música mais difícil de executar, cada mão trabalha diferente, e tocou ela inteirinha ao piano, para nosso deleite, numa audição exclusiva. A vida num cruzeiro é assim, feita também desses momentos inusitados, belos, felizes e impossíveis de esquecer. Isso nunca faltou no saudoso Eugenio Costa.
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