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Entrevista: Cristovão e Katiusca

Por Milton Saldanha

Nascidos para Bailar

Katiusca Dickow começou a dançar aos 8 anos, no balé clássico, em Foz do Iguaçu, sua terra natal, espelhando-se na mãe, Márcia Maria Cunha, que dançava jazz. Em Curitiba, fez a escola de formação em balé clássico do Teatro Guaira, onde ficou 9 anos. Depois entrou na faculdade de Dança, onde, no segundo ano, escolheu a dança de salão para o estágio obrigatório, por sugestão de Sheila, do então Centro de Dança Jaime Arôxa-Curitiba, atual Oito Tempos. Pesou na sua decisão de entrar na dança de salão uma palestra e uma aula de Jaime Arôxa, na faculdade. Até ali, em bailes, ela só conhecia danças gaúchas. Não tinha idéia do que era uma salsa, zouk, tango. Fez o estágio na academia, de dois meses, e não largou mais a dança de salão. No total, até agora, foram cerca de seis anos na academia e cinco de parceria com Cristovão.

Cristovão Christianis começou a dançar aos 19 anos, no Rio. Na verdade, forçado por uma ex-namorada que queria de todo jeito fazer aulas em academia. A primeira aula que viu foi de gafieira e se encantou imediatamente. Até aquele momento o que tinha na cabeça era uma idéia totalmente equivocada da dança de salão. Seu preconceito era tão grande, recorda, que não queria sequer ver um baile. Tornou-se uma espécie de bolsista, nomenclatura que ainda não existia, e aos poucos foi tomando gosto. Certo dia foi convidado por Jaime Arôxa para integrar sua segunda companhia de dança. No princípio não acreditou muito na possibilidade, porque era técnico em eletrônica, estava na faculdade de engenharia, e trabalhava na Dataprev. Não tinha, portanto, tempo. Só que a dança falava mais alto. Com vários artifícios, deixando até de almoçar, conseguiu participar dos ensaios. Quando alguém do grupo faltava, ou se machucava, ele era chamado. Começou a ficar impossível conciliar todas as atividades, dança, trabalho e faculdade. Tinha que tomar uma decisão. Para desgosto e susto da sua mãe, com quem morava, filho único, optou pela dança, largando o resto. "Foi um escarcéu", recorda. Inclusive porque ajudava no sustento da casa. Não tendo outro jeito, e vendo que ele estava determinado, a mãe acabou aceitando. Jaime arranjou-lhe uma aluna particular, para começar, pouco depois já eram seis. E assim Cristovão Christianis tornou-se profissional de dança de salão. Foi durante 9 anos do Centro de Dança Jaime Arôxa do Rio. Ajudou a fundar e assumiu como sócio a unidade Curitiba, atual Oito Tempos, hoje com filiais em Belo Horizonte e Caxias do Sul.

O casal, que dia 29 de maio oficializa a união, com cerimônia e recepção na Sociedade Ucraniana, em Curitiba, hoje é um dos mais prestigiados e requisitados para shows e cursos em todo o Brasil e até no exterior.

Eles foram entrevistados por Milton Saldanha e Rubem Mauro Machado, em janeiro, em alto mar, durante o cruzeiro Tango & Milonga, no navio Costa Mediterranea, quando retornavam de Buenos Aires.

Dance - Katiusca, o Guaíra sempre foi uma referência na dança. Como foi sua passagem por lá?
Katiusca
- Para quem busca uma formação clássica é muito bom. Para mim foi uma vida lá dentro, desde pequena. Cheguei com 9 anos e passei muito tempo, uma rotina diária de trabalho sério. Meu pai me levou para fazer o teste, mas eu sempre quis aquilo. Saia da escola pouco depois do meiodia, comia alguma coisa, e às 13:30 tinha que estar dentro da sala com a roupa inteira, inclusive o coque no cabelo. As aulas iam até cinco da tarde, depois começavam os ensaios. Havia os grupos, entre eles o juvenil e o pré-profissional. Eram os que se apresentavam. Participei dos dois. Tínhamos aulas de balé clássico, musicalização, balé moderno ou contemporâneo, história da dança, enfim tudo para a formação geral de um bailarino. A gente se formava em nível técnico. Dançamos em muitos festivais, como Joinville, Santa Maria. Aprendi muito, não só de dança, mas da vida, disciplina de ensaios, respeito pelas pessoas.

Dance - Essa disciplina que as vezes, infelizmente, falta para algumas pessoas da dança de salão, que não cumprem compromissos.
Katiusca
- O que mais tirei do balé foi isso, a disciplina. Gosto de ensaiar, de chegar no horário, de ter esse respeito pela dança, pelas pessoas que vieram antes. Isso é muito importante, as pessoas que dançam precisam ter isso. E também conhecer a história. "Ah, eu danço salsa". Sim, mas de onde vem a salsa? Quem começou com isso? Vejo isso no tango, as pessoas que começaram a dançar tango agora sabem da história, sabem da cultura. Isso no balé é muito prezado.

Dance - Cristovão, você pegou um momento muito crucial, no início daquela companhia do Jaime Arôxa, no Rio, que impactou bastante a dança de salão e estimulou a formação de novos grupos. Fale um pouco sobre essa experiência.
Cristovão
- Para mim era tudo novo, mas dava para perceber, quando a gente entrava em contato com o meio dança de salão, que era um pensamento muito diferente. Prezava por uma qualidade técnica, tanto da parte de aula quanto da performance de dança, em que era necessário o apoio de outras danças, como contato e improviso, balé clássico, contemporâneo, para melhorar o corpo do dançarino de salão, fazer apresentações, freqüentar palcos, dar aulas para grandes grupos. Percebia-se também a necessidade de um método mais eficaz, uma didática mais adequada. Tudo isso era muito trabalhado. Ainda hoje isso é muito falado, só que eu vejo que foi naquele momento que o despertar dessa idéia aconteceu.

Dance - Como era a estrutura da aula?
Cristovão
- Sempre iniciávamos o ensaio com uma aula de corpo, que podia ser contato e improviso, balé clássico. Preparávamos o corpo, aquecimento, e depois fazíamos aula ou ensaios, dependendo se tínhamos ou não shows para apresentar. As aulas eram para aprimorar a técnica, descobrir coisas novas, fazer pesquisa de movimento. Em seguida, trabalho de coreografia, orientado pelo Jaime.

Dance - Você pegou a escola numa fase mais avançada?
Cristovão
- Sim, bem mais avançada e madura, quando o Jaime já trabalhava com um coreógrafo chamado Fábio de Melo, muito famoso no Rio, que já mexia com dança contemporânea, comissão de frente de escola de samba, essas coisas. Era nosso ensaiador. Ou seja, o Jaime já tinha idéias, olhava na frente, trabalhando com gente de outra formação. Depois de tantos anos, talvez algumas coisas minhas sejam divergentes da maneira dele pensar, porque a gente vai criando suas próprias verdades, vai tendo influência de outras pessoas. Mas me considero muito privilegiado de ter caído lá. O professor e o bailarino em que me tornei tem muito a ver com a história que vivi lá.

Dance - Katiusca, quando você estava no balé clássico percebia muito preconceito em relação à dança de salão?
Katiusca
- Havia preconceito com algumas coisas, como o bolero. Diziam que era coisa de velhos. Havia muita desinformação, e acredito que continue existindo. Na faculdade de dança algumas pessoas ficavam surpreendidas. "Você vai sair do balé e vai para a dança de salão? Vai dançar bolero?" Isso mudou bastante porque o Cristovão passou a ir lá, fez palestras.

Dance - Mas na sua própria cabeça, como se processou a transição?
Katiusca
- Foi uma decisão. No balé é assim, ou pelo menos na escola em que eu estava: enquanto você está com uma saúde perfeita, não envelhece muito, tem seu lugar privilegiado, está no primeiro lugar da companhia, do grupo, é uma bailarina maravilhosa. A partir do momento em que você vai ganhando certa idade, ou se machuca, começa a mudar. Tenho um problema crônico no joelho esquerdo. Me ausentei num espetáculo de final de ano no Guaíra. No ano seguinte já tinha algumas dificuldades enfrentando esse preconceito. A dança de salão é o contrário disso. Aproveita mais talentos e todo mundo pode dançar. Assumi isso como uma verdade. Então era assim que lutava contra esse preconceito dentro da faculdade. Perguntavam: "vai fazer dança de salão mesmo?", eu respondia: "Vou! Porque acredito na dança de salão, me encantei e quero isso para minha vida". Hoje a gente já consegue dar aula na faculdade, a maioria das pessoas olha de outra forma.

Dance - Muitas bailarinas clássicas não conseguem dançar dança de salão. Que tipo de adaptação você teve que fazer para migrar de uma para outra?
Katiusca
- Acredito que a maior adaptação que experimentei foi em relação a uma leveza que tem que existir no balé e que atrapalha em alguns ritmos da dança de salão. Lembro, por exemplo, do Cristovão pedir muito em aula "mais pé no chão". Eu precisava de mais lastro. Precisava de mais força no samba, na salsa, e não estava acostumada a isso, inclusive porque dançava muito na meia ponta, com o metatarso, não usava o pé inteiro no chão.

Dance - Na contramão da pergunta anterior, que ferramentas boas você trouxe do balé clássico para a dança de salão?
Katiusca
- Aprendo novos passos com muita facilidade. Vejo e decoro. Porque no balé é assim: a professora passa a sequência e você tem que decorar muito rápido. Aí ela coloca a música e você tem que fazer. Outra coisa, as linhas são muito importantes. As linhas dos braços, das pernas. No salão não preciso muito disso, mas no show, no palco, será importante. Tenho visto muita gente boa de dança de salão sem esse cuidado, das linhas. Por exemplo, faz alguma coisa com a perna e esquece do pé, não estica. Não tem uma leveza e colocação dos braços. Uma pessoa que faz dança de salão e tem também outra técnica para ajudar faz toda a diferença no palco. E para isso ninguém precisa ter feito balé clássico a vida inteira.

Dance - É super meritório e maravilhoso que o dançarino de salão busque técnicas no balé clássico. Mas é perigoso quando leva isso para o palco e transforma numa caricatura, como acontece frequentemente. Concorda?
Katiusca
- A pessoa precisa entender o estilo que dança. Se ela é de dança de salão, os outros elementos só vão ajudar nisso.
Cristovão
- Tem que estudar muito, se quer fazer outras coisas que não são da sua área.
Katiusca
- Por muito tempo foi difícil eu me considerar uma bailarina de dança de salão. Até foi engraçado, minha parceria com o Cristovão veio por um acaso, uma necessidade. A parceira dele, na época a Sylvia Senra, teve um problema e precisou se ausentar. Havia uma apresentação, fui chamada. Eu só estava há três meses na escola e tinha feito no máximo três aulas de tango. E a coreografia era de tango. Foi um sufoco! (Risos).

Dance - Algumas pessoas gostam de um determinado ritmo e se aprofundam nele, focando sua imagem ali. Vocês trabalham com vários. A diversidade é boa ou ruim?
Cristovão
- É uma questão que a gente sempre se pergunta também. Nem nós conseguimos especificar em nosso trabalho uma especialidade. Isso vem do ato de ensinar. Ser generalista, e não especialista, é uma escolha nossa. Na escola trabalhamos com samba, bolero, soltinho, salsa, zouk, forró e tango. Passamos o tempo todo buscando aprofundamento nestes sete ritmos. Quando vamos trabalhar num evento, por exemplo, aproveitamos para fazer as aulas dos outros professores. Mas é claro, reconheço que dificilmente vamos ter o mesmo desempenho de um especialista, que vai se dedicar a um único, ou no máximo dois ritmos. Como tudo, isso tem um lado bom e outro ruim, vantagens e desvantagens. Uma desvantagem é que nunca seremos vistos e chamados como ícones de um determinado ritmo. A grande vantagem é que acabamos tendo mais oportunidades, em lugares onde os especialistas às vezes não têm. No plano técnico, a maior dificuldade não é a gente saber as figuras dos diversos ritmos e sim dançar com o caráter de cada um deles.

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