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Domingo com Antonieta

Por Francisco Ancona

Eu a vi apenas uma vez. Foi num domingo úmido do verão de 2008. Maria Antonieta passou algumas horas a bordo do Costa Magica, atracado na Praça Mauá, coração do seu Rio de Janeiro. Convidada de honra para um encontro com cerca de 50 profissionais da dança de salão que protagonizariam por uma semana o cruzeiro Dançando a Bordo, ela se produziu como se fosse brilhar em mais um dos milhares de bailes de que participou. E assim  foi.

No banco do passageiro do táxi, a caminho de seu modesto apartamento na região central da cidade, fui me informando com Monica Steinvascher sobre a notável figura. Me soava familiar, tinha ouvido falar dela, mas confesso  que não enxergava nítida sua relevância para o mundo da dança de salão brasileira. Maria Antonietta era uma novidade para mim, quanta ignorância...

Apenas 15 minutos mais tarde, acessando o navio, eu já tinha claro que estava ao lado da rainha das nossas pistas e salões. Falava muito e rápido. Construía discursos sensatos e espontâneos, com densidade de rio em cheia.  Seus 80 anos de vida passaram voando por mim, pelas ruas desertas da antiga capital, no curso de uma corrida de táxi. Já sabia, então, de muitas coisas de sua vida: alegrias na dança, discípulos, dores, dramas familiares,  vitórias contra doenças, costumes e códigos dos bailes de ontem e de hoje.

Ao ingressar no átrio, suas antenas sintonizaram de pronto na valsa que Christovão Christianis e Katiusca Dickow ensinavam para mais de 60 turistas em férias. Percebi então de seu instinto musical: em frações de segundo captou o momento da aula, os passos que o virtuoso dançarino dava com sua parceira, a atenção dos alunos, tudo. E, num átimo, invadiu a pista,  apresentando-se para a função. Surpreso e feliz com a inesperada visita, Christóvão fez-lhe reverência, interrompeu a aula, gaguejou poucas frases, puxou aplausos da curiosa platéia. Ela então tomou a palavra, agradeceu a atenção, e se propôs a dar alguns passos de valsa. Delírio. Conquistou a atenção de todos com a velocidade da luz. Percebi que cochichava delicadamente no ouvido de Christóvão enquanto evoluía lépida ao som da valsa.  Curioso, subindo para o restaurante onde almoçaríamos, tive a ousadia de perguntar-lhe o que dizia ao discípulo. “Muito simples, meu filho. Ele precisa corrigir a posição do braço. De valsa eu entendo.” Quanto talento para  ensinar! E que respeito pelo profissional de dança. Ninguém se deu conta da correção na postura que ela tinha detectado necessária, e transmitido com sutileza.

Após o almoço, pausa para sessão de fotos e gravação de depoimento em vídeo. Contou por quase uma hora novas e velhas histórias. Eu, a esta altura, já me sentia seu biógrafo, tanto sabia dela. A seu lado, a atenta Fabiana  Terra escutava, concordava (inevitável) e intervinha quando possível (raras vezes). Este depoimento precioso, aliás, agora será editado e copiado, sendo exibido e distribuído em eventos nos próximos meses. Um carinho deste  jornal Dance e da Costa Cruzeiros para com a memória da nossa dança de salão.

Pouco antes do navio zarpar, a equipe de professores do navio assistiu à emocionante introduçãode Raquel Mesquita, herdeira moral do legado de Maria Antonietta. E teve então o privilégio de absorver letra por letra, gesto por gesto, do que esta levava dentro de si como ninguém: um incondicional amor pela dança de salão, atividade para a qual exigia respeito e reconhecimento.

Através dos janelões do Costa Magica eu levei meus olhos marejados até o horizonte, percorri a ponte Rio-Niterói e me fixei na emblemática Ilha Fiscal. Nunca mais veria Maria Antonieta. O baile continua.

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